Houve um tempo em que se dizia que a lama vivia se queixando pelo fato de ser lama. Pesava-lhe ter de ser sempre sujeira. E dizia: "Que vida triste é a minha, e que triste é o destino que tenho, de sujar! Ah! se ao menos me fosse dado ser nada!" Assim dizia a lama, e depois, envolvia-se toda em sua imensa tristeza, sem a mínima vontade de olhar para nenhuma beleza que havia perto dela. E, chorando, ficava à espera da morte.
Mas, por mais que não quisesse, ela devia ver e ouvir as coisas mais bonitas. O canto dos pássaros, o perfume das flores, as águas das fontes, e ver, enfim, que tudo era festa. Nela só havia o contraste que doía até ao desespero, ou só ficavam junto dela algumas folhas secas que o sopro do vento derrubava...
Assim foi até que, um dia, aconteceu o que para a lama foi uma incrível surpresa. De repente, não se sabe de onde, veio um raio de sol que pousou nela, filtrando-se por entre as ramagens das árvores. Ele veio como alguém que gostava dela, e ficou aí por longo tempo. No dia seguinte, ele veio de novo, e de novo ficou com ela o tempo que lhe aprouve. Então, a lama acreditou que alguém podia tocar nela, sem se sujar, e disse em altos brados: "Ele tocou em mim, e não se sujou!"...
Dizem ainda que, depois de certo tempo, os dois acabaram se apaixonando, e a lama, principalmente, perdeu toda a vergonha de beijar! Ela notou que o raio de sol não era mais uma luz qualquer. E ela foi se tornando uma terra boa. E a terra boa começou a se transformar, a ter vida. E a vida era de flores que nasciam. E as flores que nasciam eram muitas. E as muitas flores pareciam as de um jardim. Por fim, a lama viu que o jardim de flores era a lama que ela, antes, era!...
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